Dicas de Fotografia

Como fotografar a aurora boreal

Frio. Muito frio.

Odeio frio, mas durante três carnavais me debandei pra Escandinávia pra ver a aurora boreal. Achei que ela faria valer a pena. Atrás dela, visitei dois dos países que ficam sempre no topo da lista de melhores países pra se viver no mundo: Noruega e Islândia.

Entre 2012 e 2014, o círculo polar ártico foi minha casa de praia. Podia estar no posto 9, mas estava vendo luzes verdes no céu.

O engraçado é que, sempre que conto dessas viagens, a primeira pergunta que as pessoas me fazem é:

– Como você se sentiu vendo a aurora boreal?

Minha primeira resposta seria:

– Frio. Muito frio.

Mas normalmente não me deixam responder, já emendam algo como “deve ser incrível, né?”

Incrível quer dizer algo que não é crível, que não dá pra acreditar. Neste caso, não. Não é isso que senti.

O que senti foi bastante crível.

Quando olhava para cima e via aquelas luzes, lá no alto, cobrindo todo o céu de verde, o que senti foi a experiência religiosa de uma atéia. Senti a certeza de não haver deus. Me senti insignificante, diante de todo o universo. Mas enquanto eu olhava a aurora aqui de baixo, ela também me olhava lá de cima. E em meio ao vento, ao frio, às paisagens de praias, lagos e fiordes, sentada nas pedras ou deitada na neve, me sentia parte de tudo. Me senti sozinha, mesmo sempre estando acompanhada. E também me senti acompanhada, acompanhada de todo o cosmos.

É. Foi isso que senti.

E frio. Muito frio.

E as fotos?

Durante o frio, fiz algumas fotos. A bichinha não é fácil de fotografar. Separei algumas dicas que aprendi na teoria e na prática.

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ISO 800, 10mm, f/2.8, 10seg

Onde ver

A aurora acontece nos pólos do Planeta, por causa da interação de partículas emitidas pelo Sol com a alta atmosfera. Por isso, para vê-la, você precisa viajar para regiões mais próximas do círculo polar. A logística mais fácil é partir para o norte (pois o pólo sul não tem cidades, hotéis e aeroportos.) A cidade de Tromsø, minha primeira parada, é conhecida como uma das melhores locações para encontrar a aurora, justamente por juntar uma localização privilegiada e estrutura adequada. A Islândia também tem estrutura e condições ótimas de luminosidade (ou falta dela), mas está um pouco mais ao sul, portanto as chances de vê-la lá são um pouco menores.

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ISO 1600, 10mm, f/2.8, 6seg

Existem vários outros lugares aonde é possível caçar a Aurora, mas esses foram os que eu visitei. Sugiro fazer uma caça com guia experiente, e sair para caçar por conta própria só depois de entender para onde ir de acordo com a previsão do tempo. Sempre com muita paciência para esperar no frio. A aurora não é um app, portanto não funciona de acordo com a nossa vontade. Você estará 100% à mercê das vontades da natureza.

Escuridão

Embora as explosões ocorram o tempo todo no Sol, a aurora é como qualquer outro fenômeno da astronomia e precisa de dois itens essenciais para ser vista: céu limpo e muita escuridão. Por isso o inverno do hemisfério norte é a melhor época para conseguir vê-la (no verão eles têm dias de claridade contínua!)

Já percebeu que é quase impossível ver as estrelas no meio de São Paulo? É por causa da poluição luminosa. Com tantas luzes é impossível ver o céu, nos sobrando somente as estrelas mais fortes. Nesse tipo de situação não é possível ver a Aurora.

Inclusive essa era uma das minhas impressões que tive que mudar: achei que os noruegueses simplesmente dirigiam indo jantar e de repente, PUF, uma Aurora aparecia na sua frente. Não é bem assim! O próprio farol do carro já pode atrapalhar a visão das luzes, principalmente se elas não estiverem muito fortes.

Mas existe um porém nessa questão de luminosidade: nas fotos da Islândia eu tive muito mais estrelas, mas menos paisagens (como estávamos no comecinho da lua crescente tinha pouquíssima luz mesmo.) Um pouquinho de luz pode ajudar a iluminar a paisagem, resultando em composições com mais elementos em fotografias. Então tudo depende mesmo do objetivo. Eu amei todos os resultados mas cada um tem seu charme.

A foto abaixo, por exemplo, foi feita na região de Tromsø, e dá pra ver que o céu está mais claro e com um pouco de alaranjado das luzes dos vilarejos:

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ISO 1000, 10mm, f/2.8, 8seg

Resumindo, para ver (e fotografar) a aurora você precisa:

  1. Estar no local certo (de preferência no círculo polar ártico)…
  2. Com o tempo certo (se o tempo estiver nublado, esqueça!)…
  3. E em um local remoto que não tenha muita claridade das cidades.

Equipamentos necessários

Vocês sabem que eu sou adepta do lema “a câmera não faz a foto” – mas neste caso alguns equipamentos são realmente necessários. Fotografar a aurora com o celular ou com uma compacta é quase impossível.

Tripé

Já tentou fotografar em escuridão total? Mesmo com a aurora o céu ainda fica muito escuro para as nossas câmeras. Exposições longas são regra ao menos de 10 a 20 segundos você vai precisar usar. E segurar a câmera parada por 20 segundos todo mundo sabe que é impossível, né? Por isso o primeiro equipamento essencial é o tripé.

Não é preciso o tripé mais moderno do pedaço. Desde que ele seja bem estável, te dê controle fácil sobre a posição da câmera e seja alto o suficiente para não te dar um torcicolo, será o suficiente. E é bom que ele seja leve, pois você ficará indo pra lá e pra cá com ele nas costas!

Lente grande-angular

A aurora é grandiosa! Se fotografamos só um pedacinho dela a foto fica bonita, mas relativamente abstrata. Lembre-se que mesmo estando ao fotografar a aurora ainda podemos pensar em composição. O ideal é usar uma lente grande-angular que permite incluir outros elementos (como a paisagem) no quadro.

Câmera com longa exposição

Sua câmera precisa permitir exposições bem longas que podem chegar a 30 segundos.

Disparador Remoto

Ele não é essencial mas é uma mão na roda. Com ele você pode disparar a foto sem precisar mexer na câmera. Alguns permitem ajustar a exposição para mais dos 30 segundos que a maioria das câmeras permitem.

Se você não tem um disparador remoto não precisa se preocupar: coloque o timer da câmera para 2 segundos e aí você terá certeza que a foto não sairá tremida por causa da sua intervenção.

Equipamentos para se aquecer

Está vendo aurora? Então você está em um lugar frio. Por isso não esqueça de boas luvas, botas e roupas adequadas. Além disso existe uma coisinha milagrosa chamada hand warmers: pacotinhos que se aquecem com o contato com o ar e você deixa dentro do seu bolso (ou do sapato, ou da roupa) – quem inventou isso merece um prêmio, pois são incríveis para não passar frio nas extremidades. Eu ficava sem luva quando queria mexer na câmera, só segurando os benditos dentro dos bolsos a cada clique! Um milagre em temperaturas negativas.

Baterias

Longas exposições acabam com a bateria, por isso é bom ter pelo menos uma extra para não correr o risco de perder a foto depois de uma longa noite de espera.

Configurações

Abertura

Deixe a abertura no máximo que a sua lente permite. Aí você me diz: “Mas eu quero uma profundidade de campo grande!” Não. Você não quer. Você quer o máximo de luz que conseguir captar, e somente com a abertura máxima você vai conseguir isso. Quando mais clara sua lente, melhor.

Você só consegue ver a aurora na vida real brilhante como você vê nas fotos porque nosso olho é muito mais sensível que a nossa câmera. E as fotos só ficam assim porque elas usaram as configurações mais extremas da câmera!

ISO e tempo de exposição (velocidade):

Você vai precisar equilibrar esses dois de acordo com o seu equipamento e com o seu objetivo. Um ISO mais alto com um tempo mais curto (e quando eu digo curto, quero dizer 10 segundos) vai resultar em uma foto com mais ruído, mas com uma aurora mais definida. Um ISO mais baixo com um tempo mais longo (30 segundos, por exemplo) vai resultar em uma foto com menos ruído, mas com uma aurora mais “borrada”.

Eu sugiro usar o ISO mais alto que a sua câmera permitir com um ruído aceitável, e adequar o tempo de exposição de acordo com as condições (luz da lua, das luzes dos vilarejos, da própria força da aurora) para conseguir auroras mais definidas, e o contrário (ISO mais baixo e tempo mais longo) para mostrar o movimento das luzes.

Foco

O foco é o mais difícil de conseguir fazer. O objetivo é deixar o foco no infinito.

Lá na região de Tromsø eu fui para lugares aonde ainda dava para ver algumas luzinhas de vilarejos distantes e, neste caso, eu fazia o foco manualmente nessas luzinhas usando o live view, que seria o equivalente ao infinito.

ISO 1000, 10mm, f/2.8, 8seg

ISO 1000, 10mm, f/2.8, 8seg

Já na Islândia, fotografei a Aurora em locais totalmente desérticos, onde não havia nada para usar como base. Neste caso eu coloquei na marcação de infinito da minha lente (que já sei ser confiável.) Se a marcação de infinito da sua lente não for confiável (faça testes antes) tente fazer um foco durante o dia em algo bem longe e faça uma nova marcação.

Se a sua lente não possui marcação de foco você precisará fazer o foco antes de sair pra caçar a aurora (e grudar com uma fita para as suas mãos gigantescas com luvas não rodarem o anel de foco sem querer) ou focar na lua (caso ela esteja presente.)

Algumas outras dicas pontuais

E por fim, aproveite!

Nem todas as suas fotos precisam ser iguais às da National Geographic. Deixe a câmera de lado de vez em quando e viva o momento. Nenhuma foto até hoje chegou aos pés do que é presenciar uma aurora boreal ao vivo. Acredite em mim: eu vi muitas fotos e muitas auroras. O frio, enquanto as luzes dançam sobre a sua cabeça, parece ir embora.

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sobre a autora

De mãos vazias, Claudia Regina segura a pá. Anda a pé, montada no touro. Cruza a ponte, e ela flui, mas a água não.

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